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A investigação da BBC que revela como Epstein manteve vítimas de abuso em apartamentos de Londres, depois que a polícia desistiu de investigá-lo
- Author, Chi Chi Izundu
- Role, Repórter de investigações
- Author, Olivia Davies, Will Dahlgreen e Adam Walker
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 12 min
O financista americano Jeffrey Epstein (1953-2019), condenado por crimes sexuais, manteve em vários apartamentos em Londres mulheres que afirmam terem sido abusadas por ele, nos anos que se seguiram à decisão da polícia britânica de não investigá-lo, segundo revelou investigação da BBC.
Nos arquivos de Epstein, encontramos provas de quatro apartamentos alugados no bairro nobre de Kensington e Chelsea, como recibos, e-mails e extratos bancários.
Seis das mulheres que moraram nesses locais já se apresentaram como vítimas dos abusos de Epstein.
Várias delas, procedentes da Rússia, Europa oriental e de outros locais, foram trazidas para o Reino Unido depois que a Polícia Metropolitana de Londres decidiu não investigar a denúncia de Virginia Giuffre (1983-2025). Ela declarou, em 2015, ter sido vítima de tráfico internacional para Londres.
A Polícia Metropolitana declarou ter seguido "linhas de investigação razoáveis" naquele momento, entrevistando Giuffre em várias ocasiões após sua denúncia e colaborando com os investigadores americanos.
E-mails incluídos nos arquivos publicados indicam que Epstein coagiu algumas das mulheres abrigadas nos apartamentos londrinos, para recrutar outras para sua rede de tráfico sexual. Elas também foram transportadas pelos trens da Eurostar para visitá-lo em Paris, na França.
A BBC examinou milhões de páginas de documentos recolhidos e publicados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos na sua investigação sobre Jeffrey Epstein. O objetivo é reconstituir a imagem mais detalhada já realizada das suas atividades no Reino Unido.
A descoberta evidencia que sua rede era mais ampla do que se tinha conhecimento, incluindo mais vítimas, uma infraestrutura consolidada com moradias e o transporte frequente de mulheres entre diferentes países.
E as operações prosseguiram até a morte de Epstein, apesar dos alertas que chegaram à polícia britânica.
A BBC não irá publicar detalhes sobre as jovens, para proteger seu anonimato, como vítimas de abuso sexual.
A investigação revelou que a polícia britânica teve outras oportunidades para abrir investigações sobre as atividades do financista no Reino Unido, além da denúncia de Giuffre. Ela afirmou ter sido vítima de tráfico e obrigada a manter relações sexuais com Andrew Mountbatten-Windsor, o ex-príncipe britânico Andrew, em 2001. Mountbatten-Windsor sempre negou ter cometido qualquer delito.
No início de 2020, uma segunda mulher denunciou à Polícia Metropolitana de Londres ter sido vítima de abusos por parte de Epstein no Reino Unido, segundo constatou a BBC. Não se sabe ao certo se foram tomadas medidas a respeito.
As autoridades britânicas também souberam em 2020, pouco depois da morte de Epstein na prisão, que o criminoso sexual condenado havia alugado pelo menos um dos apartamentos identificados pela BBC, segundo um dos documentos encontrados nos arquivos.
A advogada de direitos humanos Tesa Gregory, do escritório de advocacia britânico Leigh Day, declarou à BBC ter ficado "estupefata" por nunca ter sido iniciada uma investigação policial no Reino Unido, após tomar conhecimento das descobertas da reportagem.
"Quando existem denúncias confiáveis de tráfico de pessoas, o Estado britânico, mesmo se não se apresentarem vítimas, tem a obrigação legal de realizar uma investigação rápida, eficaz e independente", segundo Day.
A Polícia Metropolitana declarou que "reconhecemos nossas obrigações em virtude do artigo 4° da Convenção Europeia de Direitos Humanos e confiamos que elas foram cumpridas".
O artigo 4° garante o direito à liberdade contra a escravidão e o trabalho forçado.
Kevin Hyland, ex-detetive de alto escalão da Polícia Metropolitana e primeiro comissário independente contra a escravidão do Reino Unido, comentou que a polícia perdeu mais de uma oportunidade de investigar Epstein.
"As pessoas estão indignadas porque alguém se apresentou, disse 'fui vítima de tráfico por parte deste homem' e, mesmo assim, se permitiu que ele continuasse agindo impunemente. Quem da polícia tomou esta decisão?", pergunta ele.
Hyland destacou que, pela sua experiência investigando tráfico de pessoas, os agentes poderiam ter colaborado com as agências de viagem para controlar os cartões de crédito e os endereços IP (as identificações exclusivas atribuídas aos aparelhos com acesso à internet) das pessoas que reservavam com frequência passagens para grupos de mulheres solteiras.
"Epstein está morto, mas é claro que ele não atuava sozinho", prossegue ele.
"Quem mais estava envolvido e que delitos eles podem ter cometido? E é claro, o mais importante: isso continua acontecendo com outras pessoas?"
Epstein, o senhorio
A investigação da BBC revelou que, poucos meses antes de ser preso, acusado de tráfico sexual de menores, e da sua morte na prisão enquanto aguardava julgamento, Epstein se comunicava pelo Skype com uma jovem russa que morava em um dos apartamentos cujo aluguel era pago por ele.
Ele enviou a ela uma imagem que não figura nos arquivos, mas que aparentemente é uma foto sua. A mulher, em tom de brincadeira, perguntou quem era o belo homem da foto.
Epstein respondeu que era seu senhorio, mas destacou que, diferente da maioria, ele pagava o aluguel em vez de cobrá-lo.
Posteriormente, a mulher pediu dinheiro a Epstein para pagar suas aulas de inglês em Londres e comprar talheres e móveis para o apartamento. E também pediu a Epstein orientações sobre a obtenção de vistos para outra mulher russa que iria viajar para Londres.
A troca de mensagens ocorreu em 2019 e revela que Epstein manteve contato com as mulheres que abrigou em Londres até sua prisão e morte na cadeia. E mostra até que ponto ele estava envolvido em detalhes na vida delas.
Diferentemente das fotos publicadas nos arquivos de Epstein, muitas de décadas atrás, encontramos as mulheres que ele abrigou em Londres em publicações no Instagram, nas redes sociais russas e em sessões de fotos de alta costura.
Em uma destas fotografias, observa-se o lado externo do apartamento mencionado na conversa via Skype. No fundo, pode-se ver uma campainha com o nome do edifício, o que nos permitiu encontrar o contrato de aluguel nos arquivos de Epstein.
Uma remessa de presentes registrada nos arquivos nos levou a outro apartamento. E os detalhes de mais um, alugado entre 2018 e 2019, estavam ocultos em faturas de cartões de crédito.
Nelas, também estavam registrados os gastos diários da mulher que morava ali. Ela tinha seu próprio cartão adicional da conta de Epstein, com limite mensal de US$ 2 mil (cerca de R$ 10 mil).
Por fim, o quarto apartamento foi mencionado em e-mails trocados entre Epstein, uma das mulheres e os corretores de imóveis.
Apesar dos endereços privilegiados, os apartamentos, às vezes, estavam abarrotados e as mulheres precisavam dormir no sofá.
Os e-mails mostram que, em algumas ocasiões, Epstein reagia com irritação quando as mulheres se queixavam das condições que precisavam suportar.
Em um dos casos, Epstein afirmou que pagaria o aluguel de uma mulher como um "presente", se ela trabalhasse para ele por seis meses. Mas, do contrário, ele consideraria o valor como um empréstimo a ser devolvido.
Em outra mensagem, Epstein insultou a mulher, chamando-a de "grosseira", com um "comportamento repugnante", e dizendo que ela era uma "pirralha que ainda não tinha responsabilidade".
Outras mulheres que moravam nos apartamentos foram coagidas a "trabalhar" para o criminoso condenado, a fim de expandir sua rede de tráfico sexual recrutando outras mulheres, segundo descobriu a BBC.
Uma delas enviou a Epstein fotos de modelos "bonitas" que havia acabado de conhecer em Londres. Ele respondeu que aprovava sua aparência e a mulher afirmou que iria comprovar se elas eram adequadas para ele.
Não se sabe ao certo se alguma daquelas modelos chegou a ser apresentada a Epstein.
Ele também pagou os estudos de pelo menos cinco mulheres em Londres. Várias delas tinham visto de estudante no Reino Unido.
Os arquivos mostram recibos de pagamento de matrículas em escolas de inglês e conversas com uma mulher sobre uma das empresas de Epstein, que atuava como sua patrocinadora em um curso universitário de arte.
Tráfico pelo Eurostar
Epstein usou o trem da Eurostar para transportar algumas destas e outras mulheres, dentro e fora do Reino Unido, ininterruptamente até julho de 2019, quando foi preso pelas autoridades americanas.
O número de passagens compradas por ele para mulheres jovens aumentou progressivamente nos seus últimos anos de vida.
A BBC descobriu que Epstein comprou pelo menos 53 passagens para que mulheres viajassem entre a França e a Inglaterra entre 2011 e 2019. Às vezes, ele aproveitava as tarifas reduzidas da Eurostar para jovens menores de 25 anos.
Os recibos encontrados nos arquivos mostram que 33 passagens foram compradas depois que Giuffre apresentou sua denúncia de tráfico humano, em 2015.
Nos seus seis últimos meses de vida, Epstein transportou mulheres de e para Londres no Eurostar em 10 ocasiões. Uma dessas mulheres foi trazida para Londres apenas 16 dias antes da sua prisão.
Algumas das mulheres que viajaram no Eurostar se apresentaram posteriormente como vítimas de Epstein, o que foi confirmado pelos seus advogados.
Em fevereiro, a promotoria de Paris abriu duas investigações sobre as atividades de Epstein na França. Elas se concentram no tráfico de pessoas e lavagem de dinheiro.
As autoridades francesas informaram que três mulheres apresentaram denúncias contra pessoas do círculo de Epstein.
Além do aparente tráfico de pessoas de trem, a BBC descobriu novos voos privados e comerciais relacionados a Epstein, com chegadas e saídas do Reino Unido.
No ano passado, a BBC informou já ter encontrado quase 90 voos, alguns deles transportando vítimas britânicas de abusos de Epstein. Com as novas descobertas, o total já ultrapassa 120.
Quem trabalhava para Epstein no Reino Unido?
A BBC identificou várias pessoas no Reino Unido que trabalharam para Epstein e Ghislaine Maxwell, sua cúmplice no tráfico de pessoas. Atualmente, ela cumpre pena de 20 anos em uma prisão americana.
Entre elas, encontra-se um homem que acreditamos ser um dos motoristas de Maxwell e Epstein, além de uma mulher que trabalhava como assistente de Maxwell.
Uma mulher descrita como membro da equipe de funcionários domésticos de Epstein nos anos 2000 também se mudou para o Reino Unido e manteve estreitos contatos com ele. Seu nome aparece nos arquivos em faturas de remessas enviadas pela FedEx e registros de voos.
Ela costumava enviar e-mails carinhosos para Epstein. Em 2016, ela escreveu: "Sempre penso em você. Com todo meu amor, sempre."
A BBC entrou em contato com estas pessoas para tentar descobrir o que elas sabiam sobre o que estava acontecendo.
O motorista não respondeu às nossas mensagens e nos bloqueou no WhatsApp. No endereço da ex-assistente de Maxwell, encontramos uma casa vazia com escadas de construção e sacos de entulho no lado externo.
No bloco de apartamentos do leste de Londres, onde acreditávamos que fosse a casa da ex-empregada doméstica de Epstein, tocamos a campainha e perguntamos por ela. "Quem?", foi a resposta.
Nós repetimos o pedido. A mulher dentro do apartamento só disse "ups!" e ficou em silêncio. A luz da câmera da campainha permaneceu acesa, indicando que ela continuava nos observando.
Ela nunca perguntou por que a BBC estava na porta de sua casa e não negou ser a pessoa que estávamos procurando. Deixamos uma carta na sua caixa de correspondência com nossos dados de contato, mas não houve resposta.
O que sabiam as autoridades britânicas?
Em diversos comunicados emitidos em 2016, 2019, 2021, 2022 e 2025, a Polícia Metropolitana de Londres afirmou acreditar que "outras autoridades internacionais estavam em melhor posição para fazer avançar" as acusações contra Epstein.
A Polícia Metropolitana declarou que os agentes interrogaram Giuffre em três ocasiões entre 2015 e 2016. E também entraram em contato com outras possíveis vítimas, mas "não foi apresentada nenhuma acusação de conduta delituosa contra nenhum indivíduo residente no Reino Unido".
A polícia destacou ter "mantido estreita colaboração com os Estados Unidos e com outras autoridades pertinentes durante toda a investigação", para garantir que "fossem identificados todos os assuntos relacionados ao Reino Unido e para levar em consideração qualquer pedido de apoio".
Outras autoridades britânicas estavam a par de algumas das atividades de Epstein no Reino Unido e as comunicaram ao FBI americano, segundo revelam e-mails encontrados nos arquivos.
Em um memorando de 2020 dirigido ao FBI, a Agência Nacional contra o Crime do Reino Unido (NCA, na sigla em inglês) destacou as acusações relacionadas a Epstein contra Clare Hazell, condessa de Iveagh (1974-2025).
Figura da alta sociedade, Hazell se casou com um membro da família Guinness. Ela teria viajado no avião particular do financista em mais de 30 ocasiões.
O memorando também informa que uma pessoa, cujo nome foi omitido, acusou Hazell de abuso sexual, embora a Polícia Metropolitana tenha afirmado que não havia denúncias contra pessoas residentes no Reino Unido. E Virginia Giuffre também apresentou acusações públicas contra Hazell posteriormente.
Clare Hazell morreu de câncer do cérebro no ano passado.
Os e-mails incluídos nos arquivos também indicam que a NCA enviou informações financeiras sobre as transações de Epstein no Reino Unido para o FBI em 2020.
Entre elas, encontram-se pagamentos encaminhados a uma conta bancária britânica pelo aluguel de um dos apartamentos de Chelsea, que abrigava vítimas de abuso.
A NCA comunicou à BBC que não costuma fazer comentários sobre "o intercâmbio de informações com parceiros internacionais".
Por outro lado, um porta-voz da Polícia Metropolitana de Londres afirmou que a instituição estava "plenamente comprometida", em conjunto com outras forças, com o grupo do Conselho Nacional de Chefes de Polícia criado após a publicação dos arquivos de Epstein.
Isso inclui uma "avaliação das informações que indicam que os aeroportos londrinos possam ter sido usados como pontos de trânsito para facilitar a exploração sexual e o tráfico de pessoas". Esta investigação "ainda está em curso", segundo a Polícia Metropolitana.
A polícia não respondeu diretamente às nossas descobertas sobre os apartamentos em Londres e as passagens da Eurostar.
A sobrevivente de abusos de Epstein Lisa Phillips declarou na semana passada ao programa de TV Newsnight, da BBC, que "muitas mulheres apresentaram denúncias no Reino Unido, seja através dos seus advogados, da Polícia Metropolitana ou das delegacias locais".
Phillips pede uma investigação pública para "esclarecer qual foi a falha e como evitar novas ocorrências no futuro".
Tessa Gregory afirmou que o Estado deveria prestar contas e que uma investigação pública oficial teria o poder de convocar testemunhas e examinar estas questões em detalhes.
"Quando as acusações duram tantos anos e envolvem figuras públicas e instituições, provavelmente existirão questões mais amplas que o Estado também deve abordar, como, por exemplo, como isso pôde passar despercebido por tanto tempo", declarou a advogada especializada em direitos humanos .
Em janeiro, a BBC também noticiou que outra mulher alegou ter sido trazida ao Reino Unido por Epstein para manter relações sexuais com Andrew Mountbatten-Windsor.
Após a publicação dos arquivos de Epstein em janeiro, diversas forças policiais do Reino Unido, incluindo a Polícia Metropolitana, confirmaram estar realizando averiguações ou avaliando as informações, antes de decidir pela abertura ou não de uma investigação.
Mas Kevin Hyland declarou: "Não sei o que isso significa. Ou você está investigando, ou não está."
O ex-comissário contra a escravidão destacou que a denúncia de tráfico de pessoas e os detalhes dos imóveis em Londres são "mais que suficientes para iniciar uma investigação".
A fundadora do Centro para a Justiça das Mulheres, Harriet Wistrich, afirmou que a magnitude das atividades de Epstein indica que poderia existir "temor, dentro da polícia, de enfrentar pessoas que tivessem poder e contatos influentes".
"O que observamos com Epstein é uma organização extraordinária, crime organizado, presente em diversos países, incluindo o Reino Unido, que permaneceu praticamente impune, apesar do número de vítimas envolvidas", declarou Wistrich ao programa Today, de BBC Rádio 4.