Por que a morte de 'El Mencho', traficante mais procurado do México, não reduz a violência no país

Crédito, Ulises Ruiz/AFP via Getty Images
- Author, Fernando Duarte
- Role, Da BBC News
- Tempo de leitura: 5 min
A morte de Nemesio Oseguera Cervantes pelas forças de segurança mexicanas em 22 de fevereiro é, sem dúvida, um grande triunfo para os esforços do país latino-americano em conter a influência e o poder de seus cartéis de drogas.
Mas como isso afetará a organização criminosa que ele deixa para trás?
Quem era 'El Mencho'?

Crédito, Reuters
O homem conhecido como "El Mencho" era o líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), uma organização que, na última década, se tornou uma das mais temidas do México.
Sob seu comando, o CJNG desempenhou um papel importante no tráfico global de drogas desde aproximadamente 2011.
A organização diversificou suas operações, passando a atuar no tráfico de pessoas, na mineração ilegal de ouro e até mesmo na produção de abacate.

Crédito, Gerardo Vieyra/NurPhoto via Getty Images
O que acontecerá com o cartel de drogas?
Especialistas entrevistados pela BBC News alertam que a complexidade da estrutura do cartel significa que a morte de "El Mencho" dificilmente derrubará a instituição.
"A morte de El Mencho é simbolicamente muito significativa", diz a professora Annette Idler, especialista em segurança global da Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
"Ele era fundamental para o CJNG, que se tornou uma das organizações criminosas mais dominantes do México, com alcance nacional e internacional. Mas não acho que terá um grande impacto no tráfico de drogas em geral. A cadeia de suprimentos ainda existe."

Crédito, AFP via Getty Images
Exemplos do passado comprovam a resiliência dos cartéis diante da perda de seus líderes.
O principal rival do CJNG, o cartel de Sinaloa, sobreviveu às repetidas capturas — e subsequentes fugas — de seu líder, Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo. Sua prisão mais recente ocorreu em 2016.
A professora acrescenta que os cartéis estão inseridos econômica e socialmente na sociedade mexicana. "Eles frequentemente oferecem oportunidades de emprego e sustento para as populações locais."
Como os cartéis lidam com a perda de seus líderes?
Jennifer Scotland, especialista em crime organizado do instituto Royal United Services Institute, com sede em Londres, afirma que as organizações criminosas se preparam para a captura ou morte dos traficantes que as comandam.
"'El Mencho' é alvo do governo mexicano há muitos anos. Portanto, é possível que o CJNG tenha feito planos para sua sucessão", disse ela à BBC News.

Crédito, Mario Guzman/EPA
Em resposta à notícia do assassinato de "El Mencho", Guadalajara — a terceira maior cidade do México e capital do estado de Jalisco — mergulhou no caos, com os soldados do cartel fazendo retaliações e promovendo uma onda de violência nas ruas.
Desde então, os ataques se espalharam por 20 Estados mexicanos, incluindo a capital, Cidade do México.

Isso parece corroborar os temores de que a morte do traficante possa levar a uma deterioração ainda maior da situação de segurança no México.
O CJNG ficou conhecido por seus ataques contra autoridades e forças de segurança, bem como por demonstrações públicas de violência brutal em sua guerra territorial contra organizações rivais.

Crédito, Francisco Guasco/EPA
"Já estamos vendo retaliações descaradas do CJNG em todo o México na forma de bloqueios de estradas, incêndios criminosos e ataques à infraestrutura — que são respostas típicas de grupos do crime organizado mexicano, em protesto contra prisões de alto perfil e outras ações de repressão do Estado", acrescenta Scotland.
Duas ameaças adicionais são possíveis lutas internas dentro do CJNG pela sucessão do traficante e uma tomada de poder por cartéis rivais. "Qualquer sinal de fraqueza pode levar grupos rivais — como o cartel de Sinaloa — a tentar retomar o controle territorial em áreas disputadas."

Crédito, Susana Gonzalez/Bloomberg via Getty Images
Há também a questão de como as autoridades mexicanas podem manter uma luta em duas frentes, já que as forças de segurança estão envolvidas em grandes operações contra o cartel de Sinaloa.
A professora de Oxford argumenta que a situação põe em xeque a atual "abordagem de decapitação" adotada pelo governo em relação ao crime organizado. Ela alerta: "Isso não aborda a estrutura criminosa nem a questão da demanda por drogas nos países ocidentais."
Editado por Andrew Webb, da BBC World Service




















