Irã nega afirmação de Trump de que solicitou um cessar-fogo aos EUA: 'falsa e sem fundamento'

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O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou nesta quarta-feira (01/04) que a declaração do presidente Donald Trump de que o país pediu um cessar-fogo é "falsa e infundada".

A TV estatal iraniana atribuiu as declarações ao porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei.

A declaração surge após Trump ter afirmado, em uma publicação na rede Truth Social, que o "Novo Presidente do Regime" do Irã, cujo nome ele não especificou, havia pedido um cessar-fogo e que ele o consideraria "quando o Estreito de Ormuz estiver aberto, livre e desimpedido".

Ainda segundo a mensagem de Trump, até que um acordo seja obtido, seu país continuará a "bombardear o Irã até a sua destruição".

"O novo presidente do regime iraniano, muito menos radicalizado e bem mais inteligente que seus antecessores, acaba de pedir um cessar-fogo aos Estados Unidos da América", escreveu o presidente americano na rede social Truth Social.

"Só consideraremos a questão quando o Estreito de Ormuz estiver aberto, livre e desimpedido. Até lá, vamos bombardear o Irã até a sua destruição ou, como se diz, de volta à Idade da Pedra!!!".

Esta não é a primeira vez que Trump afirma que o Irã estaria buscando um acordo. Até agora, porém, as autoridades iranianas negaram ter feito qualquer pedido de cessar-fogo.

Em uma entrevista publicada pelo jornal britânico The Telegraph mais cedo nesta quarta, Trump disse ainda que está considerando seriamente a saída dos EUA da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar ocidental.

Segundo o americano, a aliança seria um "tigre de papel", uma expressão usada para se referir a algo ou alguém que afirma ou parece ser poderoso ou ameaçador, mas que, na verdade, é ineficaz e incapaz de resistir a desafios.

Questionado pelo jornal se reconsideraria a participação dos EUA na aliança após o atual conflito no Oriente Médio, Trump disse: "Ah, sim, eu diria que [isso] não tem mais volta...

"Nunca me deixei influenciar pela Otan. Sempre soube que eles eram um tigre de papel, e Putin também sabe disso, aliás", disse, em referência ao presidente russo, Vladimir Putin.

EUA deixarão o Irã em 'duas ou três semanas'

Na terça-feira (31/3), durante conversa com jornalistas no Salão Oval, na Casa Branca, Trump havia dito que os Estados Unidos deixariam o Irã em "duas ou três semanas".

Segundo o presidente americano, o país tinha um objetivo, que era impedir o Irã de ter armas nucleares — e esse objetivo já foi alcançado.

"Estamos terminando o trabalho", afirmou.

Em suas declarações de terça, Trump avaliou que os EUA conseguiram uma "mudança de regime" após o assassinato de muitos líderes políticos e militares de alto escalão, e descreveu os novos líderes em Teerã como "muito menos radicalizados" e "mais racionais" em comparação com seus antecessores.

O presidente americano também voltou a dizer que o Irã está "implorando por um acordo", algo que autoridades iranianas têm negado.

"Queremos eliminar tudo o que eles têm. Mas é possível que façamos um acordo antes disso", afirmou, pontuando, porém, que a guerra pode terminar "com ou sem acordo".

Mais cedo na terça, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que o Irã possui a "vontade necessária" para encerrar a guerra com os EUA e Israel, desde que certas condições sejam atendidas.

As declarações foram feitas durante uma ligação com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, e divulgadas inicialmente pela mídia estatal iraniana, o que gerou uma reação positiva nos mercados americanos.

Apesar do otimismo inicial, o cargo de presidente no Irã é subordinado a um sistema dominado por clérigos linha-dura. A Guarda Revolucionária Islâmica mantém uma postura agressiva, ameaçando expandir retaliações a empresas de tecnologia americanas, mostrando que sinais de conciliação ainda são limitados

Além disso, a disposição para encerrar o conflito vem acompanhada de condições rigorosas, como garantias de que a guerra não será retomada — algo já incluído na resposta do Irã ao plano de paz de 15 pontos dos EUA na semana passada.

Após críticas de Trump, Reino Unido envia tropas ao Oriente Médio

Na terça, o Reino Unido anunciou que vai enviar tropas e mais sistemas de defesa aérea ao Oriente Médio para ações defensivas contra ataques do Irã. O deslocamento vai elevar para cerca de mil o total de militares britânicos envolvidos na defesa do Golfo e do Chipre.

O secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, disse que equipes e sistemas adicionais de defesa aérea seriam enviados à Arábia Saudita, ao Bahrein e ao Kuwait, enquanto o uso de jatos Typhoon no Qatar será estendido.

Ele informou ainda que o Reino Unido enviará à Arábia Saudita, ainda esta semana, o sistema de mísseis de defesa aérea Sky Sabre, juntamente com equipes para operá-lo.

O sistema pode interceptar munições e aeronaves e será integrado às defesas aéreas mais amplas da região, disse o ministério.

"Minha mensagem aos parceiros do Golfo é: o que o Reino Unido tem de melhor ajudará vocês a defender seus céus", afirmou Healey em viagem pelos países do Golfo.

Trump tem criticado a posição do Reino Unido em relação à guerra, assim como a de outros aliados da Otan.

Na entrevista ao Telegraph publicada nesta quarta-feira, o presidente americano afirmou que os britânicos "sequer possuem uma marinha", ao explicar suas críticas à aliança ocidental.

"Vocês nem sequer têm uma marinha. São antigos demais e tinham porta-aviões que não funcionavam", acrescentou, se referindo ao estado da frota de navios de guerra do Reino Unido.

Na terça-feira, Trump já havia mencionado especificamente o Reino Unido ao afirmar que países que não participaram dos ataques iniciais contra o Irã deveriam "buscar seu próprio petróleo" no Estreito de Ormuz.

"Todos esses países que não conseguem combustível de aviação por causa do Estreito de Ormuz, como o Reino Unido, que se recusou a participar da decapitação do Irã, tenho uma sugestão para vocês: número 1, comprem dos EUA, nós temos de sobra, e número 2, criem um pouco de coragem tardia, vão ao Estreito e simplesmente TOMEM", escreveu em uma publicação na rede social Truth Social.

"Vocês terão de começar a aprender a lutar por si mesmos."

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, disse na segunda-feira (30/3) que o país "não vai ser arrastado para esta guerra", mas vai continuar defendendo seus interesses e aliados na região.

Starmer reiterou que tropas britânicas não serão enviadas para atuar em solo iraniano.

"Esta guerra não é nossa e não vamos ser arrastados para ela", afirmou ao responder a uma pergunta de jornalistas.

O Reino Unido anteriormente autorizou os EUA a utilizarem bases militares britânicas para ataques "defensivos" contra locais de lançamento de mísseis iranianos, depois que Starmer recusou um pedido para usar bases britânicas nos ataques iniciais dos EUA e de Israel contra o Irã em fevereiro.

Netanyahu diz que 'mais da metade' dos objetivos militares foram alcançados

Nesta segunda, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a ofensiva "definitivamente ultrapassou a metade", mas esclareceu posteriormente que se referia a missões, não a tempo.

Netanyahu acrescentou que a guerra matou "milhares" de membros da Guarda Revolucionária do Irã e que Israel e os EUA estavam "perto de acabar com a indústria armamentista", destruindo fábricas inteiras e o próprio programa nuclear.

Segundo o Wall Street Journal, Trump teria dito a seus assessores que está disposto a encerrar a campanha militar contra o Irã, mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça em grande parte fechado.

Questionada sobre o assunto, a Casa Branca remeteu a comentários feitos pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que o estreito de Ormuz "reabrirá de uma forma ou de outra".

Trump fez novas ameaças de "aniquilar" as usinas de energia, poços de petróleo e "possivelmente" as usinas de dessalinização de água do Irã caso um acordo não seja alcançado "em breve".

"Grandes progressos foram feitos, mas, se por algum motivo um acordo não for alcançado em breve, o que provavelmente acontecerá, e se o estreito de Ormuz não for imediatamente 'aberto para negócios', concluiremos nossa adorável 'estadia' no Irã", o mandatário publicou na rede social Truth Social.

Mas um porta-voz do ministro das Relações Exteriores do Irã negou, mais uma vez, que tenha havido negociações com autoridades americanas. Esmaeil Baqaei afirmou que o Irã "não negociou com os EUA nesses 31 dias", referindo-se à duração da guerra.

"O que ocorreu foi o envio de um pedido de negociação, acompanhado de um conjunto de propostas dos Estados Unidos, que nos chegaram por meio de certos intermediários, incluindo o Paquistão", escreveu Baqaei em uma declaração online.

"Nossa posição é muito clara. Enquanto a agressão militar e a invasão americana continuam com toda a intensidade, todos os nossos esforços e recursos estão voltados para a defesa da essência do Irã. Não nos esquecemos da traição infligida à diplomacia em duas ocasiões em menos de um ano."

O estreito de Ormuz

Uma comissão parlamentar no Irã aprovou planos para impor pedágios ao tráfego no estreito de Ormuz, de acordo com a agência de notícias Fars, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).

A agência acrescenta que, segundo os planos, navios americanos, israelenses e de outros países que participaram das sanções contra o Irã seriam proibidos de transitar pelo estreito.

A agência de notícias AFP informou que o novo sistema de pedágios foi anunciado na televisão estatal iraniana, que afirmou que o Irã o implementará em cooperação com Omã.

Cerca de 20% do petróleo bruto mundial passa por essa importante via marítima entre o Irã e Omã. Desde o início da guerra, as travessias caíram cerca de 95%, segundo a empresa de inteligência marítima Kpler.