O que o estresse faz com a sua pele — e como lidar com isso

Uma jovem de cabelos escuros olha-se no espelho, tocando a pele ao redor dos olhos com uma expressão sombria

Crédito, Getty Images

    • Author, Ellen Tsang
    • Role, BBC World Service
  • Tempo de leitura: 6 min

Mudou de casa e as espinhas apareceram de repente? Ou passou por um término de relação e o eczema piorou? Pode não ser coincidência.

Há muito tempo se suspeita que o estresse afeta a pele. Mas, nas últimas décadas, pesquisas vêm aprofundando a compreensão de como funciona essa conexão entre mente e pele — o que tem ajudado tanto no tratamento de doenças dermatológicas quanto na saúde da pele de forma geral.

O estresse pode ter uma série de efeitos: desde agravar crises de acne até provocar ressecamento e sensibilidade, aumentar o risco de infecções e piorar — ou até desencadear — condições como eczema, psoríase e urticária.

"A sua pele é impactada tanto por estresses físicos quanto emocionais", explica a dermatologista Alia Ahmed, especialista em psicodermatologia, uma área emergente que considera mente e pele de forma integrada.

Ela conta que avalia não apenas os sintomas físicos dos pacientes, mas também o bem-estar psicológico — perguntando sobre humor, ansiedade, episódios de choro, padrões de sono, alimentação e prática de exercícios.

"Dermatologistas muitas vezes se sentem como detetives", diz. Isso porque o estado da pele — o maior órgão do corpo — pode ser um importante indicador da saúde geral de uma pessoa.

Como o estresse afeta a pele?

Cérebro e pele se desenvolvem a partir do mesmo grupo de células nas fases iniciais do embrião — e permanecem intimamente conectados.

Quando nos sentimos estressados, o cérebro desencadeia uma série de reações que liberam hormônios como cortisol e adrenalina na corrente sanguínea.

Em pequenas doses, essa resposta — conhecida como reação "de luta ou fuga" — pode nos deixar mais alertas e ajudar a dar conta das tarefas do dia a dia.

Mas, quando prolongada, ela pode aumentar a inflamação no organismo, agravando doenças inflamatórias da pele.

Além disso, esses hormônios podem enfraquecer a barreira cutânea — a camada externa que protege a pele. Isso facilita a perda de hidratação e permite a entrada de irritantes e alérgenos, como pólen e fragrâncias, o que pode levar ao ressecamento e à sensibilidade, explica Ahmed.

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Ao mesmo tempo, o estresse reduz os peptídeos antimicrobianos — pequenas moléculas que normalmente eliminam germes — na pele, tornando as infecções mais prováveis.

Há também evidências de que ele pode piorar a acne, inclusive ao estimular a produção de uma substância oleosa chamada sebo, que pode obstruir os poros e favorecer o surgimento de espinhas.

E, como destaca a médica Alia Ahmed, o estresse também pode prejudicar o sono — o que compromete a capacidade de regeneração da pele.

Ciclos viciosos

Close de um homem com uma camiseta amarela clara coçando o pescoço com as duas mãos

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Legenda da foto, O estresse pode piorar a coceira, e a coceira pode piorar o estresse

Os sinais de estresse também fazem com que células da pele liberem substâncias como a histamina, que provocam coceira — alimentando o chamado ciclo coceira-ato de coçar.

"Você sente coceira, se coça, causa mais danos à pele e isso faz com que a coceira aumente ainda mais", explica Alia Ahmed. "E aí você começa a se irritar consigo mesmo: por que não consigo parar de me coçar? Isso eleva ainda mais o nível de estresse — que, por sua vez, intensifica a coceira."

A própria experiência de ter um problema de pele também pode agravar o quadro, acrescenta ela, citando o exemplo de condições como o eczema: "Você se coça, isso afeta sua qualidade de vida, você se sente mal porque as pessoas comentam — e fica ainda mais estressado. E aí todo o problema se retroalimenta, criando um ciclo vicioso."

Reduzir o estresse ajuda?

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"O estresse pode se tornar prejudicial quando começamos a sentir que não conseguimos controlá-lo", explica Rajita Sinha, professora de psiquiatria, neurociência e estudos da criança na Universidade Yale.

Nesse ponto, podem surgir sinais físicos, como dores de cabeça ou problemas no estômago, além de sintomas como lapsos de memória, irritabilidade ou dificuldade para dormir.

Ela recomenda adotar medidas como buscar apoio e praticar mais atividade física. Há evidências de que o exercício regular pode reduzir os níveis basais de cortisol — e que atividades mais intensas podem ajudar a conter picos de cortisol relacionados ao estresse.

A professora também sugere a prática de meditação mindfulness. Quando feita de forma regular, estudos indicam que ela pode fortalecer o córtex pré-frontal — região do cérebro responsável por funções mais complexas, como o raciocínio — aumentando sua espessura e melhorando sua conexão com outras áreas cerebrais.

Terapias baseadas em mindfulness também têm mostrado resultados promissores na melhora da qualidade de vida e dos sintomas físicos em algumas doenças de pele. Em um estudo com pacientes com psoríase, por exemplo, aqueles que receberam esse tipo de terapia, além do tratamento convencional, apresentaram melhores resultados do que os que não receberam.

Uma jovem com acne nas bochechas e no nariz toca o nariz. Sua expressão é triste e irritada

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, O estresse estimula as glândulas da pele que produzem uma substância oleosa chamada sebo, que pode obstruir os poros e contribuir para o surgimento da acne

Será que estou mesmo lidando com o estresse?

A médica Alia Ahmed diz que recomenda que seus pacientes testem diferentes estratégias para lidar com o estresse, a fim de descobrir quais funcionam melhor para cada um.

As opções vão desde exercícios de relaxamento feitos na cama antes de dormir até meditação em movimento, para pessoas mais ativas, ou técnicas de "aterramento", que ajudam a "trazer você de volta ao momento presente", especialmente para quem se distrai com facilidade ou fica preso em pensamentos repetitivos.

Mas, segundo ela, relaxar de verdade pode ser mais difícil do que parece.

"Vejo muitas pessoas de alto desempenho no consultório", afirma — incluindo aquelas com rotinas exigentes no trabalho ou em casa, como cuidar dos filhos ou de pais idosos.

Embora algumas digam que vão à academia ou fazem caminhadas diárias para relaxar, Ahmed observa que, ao investigar melhor, muitas continuam pensando nas tarefas que ainda precisam cumprir. "A sua mente também precisa ter espaço para descansar durante essas atividades", ressalta.

Silhueta de uma mulher correndo entre duas árvores, na orla de São Petersburgo, Flórida, ao nascer do sol. O céu está amarelo pálido e a água azul-prateada

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Legenda da foto, Existem algumas evidências de que o exercício físico regular pode reduzir nossos níveis basais de cortisol, ajudando a combater o estresse

O panorama geral

Além de reduzir o estresse, a médica Alia Ahmed afirma que a pele precisa de "um pouco de tudo" — incluindo cuidados adequados com a pele e eventuais tratamentos médicos, além de uma boa alimentação, sono e estilo de vida.

Ela ressalta que isso deve ser mantido ao longo do tempo para que haja uma melhora consistente na saúde da pele — o que pode, inclusive, ajudar o paciente a identificar outros fatores que desencadeiam seus problemas dermatológicos.

Segundo Ahmed, a abordagem holística da psicodermatologia também pode trazer benefícios mais amplos: "Não só vejo melhora nas condições de pele dos meus pacientes, como também ouço deles que estão se sentindo melhor mentalmente."