Cuba sob o cerco de Trump: as toneladas de comida e remédios que governo Lula envia à ilha sem alarde

Crédito, Pablo Porciúncula/AFP via Getty Images
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
- Tempo de leitura: 5 min
Em meio ao agravamento da crise econômica e energética em Cuba, o governo brasileiro prepara uma doação de aproximadamente 21 mil toneladas de mantimentos ao país caribenho. A ajuda humanitária foi solicitada ao Brasil pelo governo cubano.
A quantidade final e a data do envio do carregamento ainda estão sendo discutidos pelos governos dos dois países, segundo uma fonte ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado. Ainda de acordo com essa fonte, o envio depende de o governo cubano disponibilizar um navio para o transporte da carga.
A BBC News Brasil apurou que o assunto vem sendo conduzido com discrição pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A cautela seria uma tentativa de evitar a politização do tema em um ano eleitoral.
Se confirmada, porém, a doação será maior do que tudo o que o governo brasileiro doou para outros países entre julho e dezembro de 2025, segundo dados mais recentes divulgados pela Agência Brasileira de Cooperação, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) e responsável pela organização da doação.
No semestre passado, o governo brasileiro enviou 45 toneladas de ajuda humanitária para 22 países da América Latina, do Caribe, da África, da Ásia e da Europa, segundo uma publicação feita pela agência em seu próprio site.
A ajuda humanitária brasileira a Cuba vinha sendo discutida pelo governo brasileiro desde meados de fevereiro. Em discurso no início de fevereiro a militantes do PT, o presidente Lula disse que o Brasil seria "solidário" e criticou as ações americanas sobre o país.
"Nosso país é solidário ao povo cubano, que é vítima de um massacre de especulação dos Estados Unidos contra eles. E que nós temos que encontrar, enquanto partido, um jeito de ajudar", disse o petista.
Procurado pela BBC News Brasil, o MRE não se manifestou até a conclusão desta reportagem.
Arroz, feijão e remédios
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A ajuda humanitária organizada pelo governo brasileiro será composta de:
- 20 mil toneladas de arroz com casca;
- 150 toneladas de feijão;
- 200 toneladas de arroz sem casca;
- 500 toneladas de leite em pó;
- 80 toneladas de medicamentos antifúngicos e anti-arboviroses
A BBC News Brasil não conseguiu uma estimativa sobre o valor financeiro desta carga.
Esse carregamento vai se somar a um outro carregamento de ajuda humanitária que já foi enviado a Cuba no final de fevereiro.
Naquela oportunidade, foram enviadas 2 toneladas de medicamentos contra tuberculose e Doença de Chagas em avião de carreira.
Em documento enviado à BBC News Brasil pelo Ministério da Saúde por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) a pasta disse que o envio desta carga aconteceu "sem impacto negativo no abastecimento do Sistema Único de Saúde (SUS)".
No mesmo documento, a pasta informou que o pedido de envio de ajuda humanitária foi feito em fevereiro.
Apesar do envio de alimentos e medicamentos, o governo não estaria disposto, segundo outra fonte ouvida pela BBC News Brasil, a enviar combustível para Cuba.
A ideia seria evitar um desgaste diplomático e econômico com o governo americano.
A empresa que poderia fazer esse envio a mando do governo, a Petrobras, tem ações negociadas em bolsas de valores dos Estados Unidos e poderia ser punida pelo governo dos EUA.

Crédito, REUTERS/Norlys Perez
Uma fonte do governo brasileiro ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado disse, que a gestão petista vem tratando esta ajuda humanitária com cautela para evitar que ela seja explorada politicamente por grupos de direita, especialmente em um ano eleitoral.
Essa mesma fonte disse que Cuba mantém uma longa tradição de envio de ajuda humanitária para países de diferentes matizes ideológicos e que Cuba seria apenas um dos países para os quais o Brasil envia mantimentos como ajuda.
Um exemplo recente seria o envio, em janeiro deste ano, de 1,1 milhão de vacinas à Bolívia, governada pelo presidente de direita Rodrigo Paz.
Nas últimas décadas, porém, governos petistas foram atacados por seus laços com o regime cubano.
Uma das críticas mais recorrentes e que vem sendo explorada em diversas eleições é sobre o financiamento feito pelo Brasil à construção do Porto de Mariel, em Cuba, nos anos 2010.
O porto foi construído, mas Cuba não pagou o financiamento e, segundo dados de 2024 (os mais recentes disponíveis), o país tem uma dívida com o Brasil estimada em US$ 1,1 bilhão, o equivalente a R$ 5,7 bilhões.
Crise agravada
Cuba vive uma crise econômica e energética nos últimos anos agravada pelo recrudescimento das sanções econômicas impostas pelo governo do presidente Donald Trump.
Os Estados Unidos impuseram sanções a países que comercializem petróleo com Cuba, que precisa de importações para abastecer o país.
A estratégia americana, segundo analistas, é estrangular o país economicamente.
As sanções impostas desde a década de 1960 foram agravadas pela suspensão do envio de combustível venezuelano a partir de janeiro deste ano, quando Nicolás Maduro foi detido por militares americanos. A Venezuela vinha sendo, nos últimos anos, o principal fornecedor de combustível a Cuba.
O resultado é que, nas últimas semanas, os cubanos vêm tendo que conviver com apagões frequentes, filas de até dois quilômetros para abastecer seus automóveis e pilhas de lixo pelas ruas à medida em que os caminhões de limpeza também não têm tido combustível para trafegar com a mesma frequência.
O agravamento da crise fez com que o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, anunciasse, no início de março, que estava abrindo diálogo com os Estados Unidos.
Em seu discurso, Díaz-Canel disse que a prioridade do país é resolver o problema energético do país.
Ele disse reconhecer que, devido ao que classificou como bloqueio energético dos EUA, nenhum carregamento de petróleo chegou a Cuba nos últimos três meses.
Díaz-Canel afirmou que Cuba produz 40% do seu próprio petróleo e tem gerado sua energia, mas que isso não é suficiente para atender à demanda do país.
O presidente disse que a falta de eletricidade afetou as comunicações, a educação e o transporte e que, como resultado, o governo teve que adiar cirurgias para dezenas de milhares de pessoas.
"O impacto foi muito significativo", disse o presidente cubano.
Desde então, a situação se agravou.
Na semana passada, cinco pessoas foram detidas pelas forças de segurança de Cuba depois que um grupo ateou fogo à sede do Partido Comunista na cidade de Morón, na região central do país.
No mesmo dia dessa manifestação, Trump falou em "tomar" Cuba.
"Toda a minha vida ouvi falar de Cuba e dos EUA. Quando os EUA iriam fazer isso? Acho que terei... a honra de tomar Cuba.", disse o americano.
"Seja libertando-os, tomando-os — acho que poderei fazer o que quiser com eles, para dizer a verdade. Eles são uma nação muito fragilizada agora", disse Trump.



























