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Ataques de Israel ao Líbano colocam em risco cessar-fogo entre Irã e EUA; o que aconteceu no 1º dia de trégua
- Author, BBC News Persa e BBC News*
- Tempo de leitura: 9 min
Passadas pouco mais de 24 horas desde que o presidente Donald Trump anunciou um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, o acordo já começa a dar sinais de fragilidade.
Nesta quarta-feira (8/4), Israel lançou uma grande onda de ataques no Líbano, que já deixaram ao menos 182 mortos. Ainda há divergências se o país está incluído no cessar-fogo.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmam ter realizado os "maiores ataques" desde o início de sua operação terrestre contra o Hezbollah, partido político islâmico xiita e grupo paramilitar apoiado pelo Irã.
Segundo Israel, 100 alvos foram atingidos em apenas 10 minutos no Líbano.
A Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) ameaçou retaliar e disse que vai dar uma "resposta que vai causar arrependimento" caso os ataques não sejam interrompidos imediatamente.
"Se as agressões contra o querido Líbano não forem imediatamente encerradas, cumpriremos nosso dever e daremos uma resposta que causará arrependimento aos agressores mal-intencionados na região", publicou a agência de notícias estatal iraniana (IRNA, na sigla em inglês), citando uma autoridade da IRGC.
"Qualquer ataque ao orgulhoso Hezbollah é um ataque ao Irã. O campo [militar] está se preparando para uma resposta pesada aos crimes selvagens do regime [Israel]."
Nas primeiras horas de quinta-feira (8/4), o Hezbollah afirmou, em um comunicado publicado nas redes sociais, ter disparado foguetes contra o norte de Israel em resposta às violações do cessar-fogo.
Mais cedo, o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou em uma publicação no X que três pontos da proposta iraniana de 10 itens foram "claramente violados" e que, nessas condições, um "cessar-fogo bilateral ou negociações" seriam "irracionais".
Ghalibaf disse que o Líbano estava incluído no acordo — algo que a Casa Branca nega.
Durante a tarde de quarta, o presidente Donald Trump indicou que Israel não está violando os termos do acordo com o Irã — classificando o Líbano como um "confronto à parte".
Já o vice-presidente JD Vance, afirmou que os EUA "nunca prometeram incluir o Líbano no cessar-fogo".
A afirmação contradiz a declaração do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que vinha mediando as negociações. Segundo Sharif, o cessar-fogo a partir desta quarta também passaria a valer no Líbano.
O ministro das Relações Exteriores iraniano afirmou que os Estados Unidos devem escolher entre um cessar-fogo ou a continuidade da guerra "via Israel".
Em uma publicação no X, Seyed Abbas Araghchi disse que os termos estabelecidos no cessar-fogo de duas semanas entre os EUA e o Irã são "claros e explícitos". "A bola está no campo dos Estados Unidos, e o mundo observa se eles cumprirão seus compromissos", afirmou.
Ataques ao Líbano
Apesar de reconhecer o cessar-fogo temporário entre Irã e EUA, anunciado na noite de terça-feira (7/4), Israel insiste que a trégua não inclui o Hezbollah.
"Estamos continuando a atingi-los com força", disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, afirmando que desferiou o maior golpe contra o grupo.
Netanyahu também sugeriu que Israel está preparado para retomar o conflito com o Irã, se "necessário", e afirmou que "nosso dedo" permanece no gatilho.
Segundo o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, o país insiste em "separar os cenários entre o Irã e o Líbano para mudar a realidade no Líbano e remover ameaças aos moradores do norte de Israel [fronteira com o Líbano]".
A liderança de Israel tem afirmado que não deixará o país vizinho até que a ameaça representada pelo Hezbollah seja eliminada.
A agência de notícias árabe Lebanon 24 informou que os hospitais no Líbano estão superlotados de vítimas e que o Ministério da Saúde está pedindo aos cidadãos que evitem sair às ruas para liberar espaço para as ambulâncias.
O canal de TV pró-Hezbollah Al Manar relatou múltiplas mortes e feridos em decorrência dos ataques aéreos nos subúrbios do sul de Beirute, no Vale do Bekaa e nas montanhas.
Segundo o Ministério de Saúde do Líbano, mais de 180 pessoas morreram nos ataques de Israel desta quarta. Os hospitais de Beirute estão lotados.
O primeiro-ministro libanês pediu a "todos os amigos do Líbano" que impeçam a ação militar israelense no país "por todos os meios disponíveis", após a grande onda de ataques aéreos.
Em uma publicação no X, Nawaf Salam afirmou: "Israel continua a expandir suas agressões, que têm como alvo bairros residenciais densamente povoados, ceifando a vida de civis desarmados em várias partes do Líbano, particularmente na capital, Beirute".
Salam disse que as ações da IDF demonstraram um "total desrespeito" pelo direito internacional, acrescentando: "Todos os amigos do Líbano são convocados a nos ajudar a impedir essas agressões por todos os meios disponíveis".
Após os novos ataques de Israel, um grupo de países ocidentais pediu uma "paz rápida e duradoura" no Irã e que "todas as partes" cumpram o cessar-fogo de duas semanas — inclusive no Líbano.
A declaração é assinada por líderes do Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Países Baixos, Espanha, Comissão Europeia e Conselho Europeu.
Durante a tarde, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, esteve na Casa Branca para se reunir com Donald Trump e deixou o encontro afirmando que o presidente americano está "claramente desapontado" com os aliados da aliança.
Pouco depois, Trump fez uma publicação nas redes sociais dizendo que "a Otan não esteve ao nosso lado quando precisamos — e não estará se precisarmos novamente".
A situação no Estreito de Ormuz
Ainda não está claro quantos navios conseguem atravessar o Estreito de Ormuz, em meio a informações conflitantes sobre a abertura da passagem marítima.
Na quarta, a mídia iraniana afirmou que o estreito foi novamente fechado e petroleiros pararam de passar pela rota após Israel continuar seus ataques no Líbano.
O cessar-fogo de duas semanas foi acordado com a condição de que o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz fosse reestabelecido. É por essa via que passa cerca de 20% do petróleo global.
Durante a tarde, dois veículos iranianos divulgaram dados de um site de rastreamento marítimo mostrando um navio com bandeira do Panamá que se aproximou da região, mas acabou retornando.
A publicação foi acompanhada da mensagem: "O Estreito de Ormuz foi totalmente fechado, forçando petroleiros a recuar".
Após a divulgação do fechamento, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a informação é "falsa".
Em coletiva de imprensa, ela afirmou que o que está sendo dito publicamente é diferente do que está sendo dito em privado — dizendo que houve um "aumento" no tráfego de navios nesta quarta.
Ela reiterou que a expectativa de Trump é de que o estreito seja aberto "imediatamente", acrescentando que foi comunicado ao presidente em caráter privado que é isso que está acontecendo.
A agência de notícias Fars, filiada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), força de segurança de elite com ligação direta com o líder supremo do país, informou que, embora dois petroleiros tenham conseguido passar pelo estreito com permissão do Irã na manhã desta quarta, a passagem foi interrompida.
A Agência de Notícias da República Islâmica (IRNA) também relata que os navios foram impedidos de passar, com ambos os veículos de comunicação fazendo referência aos contínuos ataques de Israel ao Líbano.
A corretora de navios SSY confirmou ao BBC Verify, serviço de checagem da BBC, que embarcações no Golfo Pérsico receberam a seguinte mensagem:
"Atenção a todas as embarcações no Golfo Pérsico e no Mar de Omã. Esta é a Estação Naval da Guarda Revolucionária Islâmica. A travessia do Estreito de Ormuz permanece fechada e é necessária autorização da IRGC para navegar pelo estreito. Qualquer embarcação que tentar entrar no mar será alvejada e destruída."
Claire Grierson, chefe de pesquisa de navios-tanque da SSY, disse que a empresa está ciente de que as tripulações das embarcações ouviram essa mensagem em um canal de rádio usado para alertas marítimos internacionais.
O acordo veio mais de um mês após EUA e Israel lançarem ataques coordenados contra o Irã e poucas horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar que "uma civilização inteira morreria na noite de terça "para nunca mais ser ressuscitada" caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz.
Divergência no plano de 10 pontos
Uma mídia estatal iraniana chegou a divulgar, logo após o anúncio de cessar-fogo, um plano de dez pontos que teria sido enviado aos EUA e seria discutido nos próximos dias. Ele previa:
- Cessar completamente a guerra no Iraque, Líbano e Iêmen;
- Cessar completa e permanentemente a guerra contra o Irã, sem limite de tempo;
- Encerrar todos os conflitos na região em sua totalidade;
- Reabrir o Estreito de Ormuz;
- Estabelecer um protocolo e condições para garantir a liberdade e segurança da navegação no Estreito de Ormuz;
- Pagamento integral de indenizações pelos custos de reconstrução ao Irã;
- Compromisso total com a suspensão das sanções ao Irã;
- Liberação de fundos e ativos congelados do Irã mantidos pelos Estados Unidos;
- O Irã se compromete integralmente a não tentar possuir armas nucleares;
- O cessar-fogo imediato entra em vigor em todas as frentes assim que as condições acima forem aprovadas.
A Casa Branca contestou, no entanto, a proposta de dez pontos divulgada e afirmou que ela difere do que foi efetivamente recebido por autoridades americanas.
Trump afirmou na rede Truth Social que o que foi divulgado está sendo compartilhado por "pessoas que não têm nada a ver" com as negociações.
"Em muitos casos, são verdadeiros falsários, charlatães ou algo pior do que isso. Eles serão rapidamente desmascarados após a conclusão de nossa investigação federal."
Trump acrescentou que apenas uma proposta é aceitável para os EUA e que ela está sendo discutida a portas fechadas.
O que disseram EUA e Irã?
Ao anunciar o cessar-fogo de duas semanas na noite de terça-feira, Trump afirmou que concordou em "suspender o bombardeio e os ataques contra o Irã" porque "já atingimos e superamos todos os objetivos militares".
O anúncio aconteceu depois do presidente americano ter ameaçado destruir o Irã "em uma noite" e que "toda civilização morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada".
As ameaças que foram condenadas pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo papa Leão 14.
Nesta quarta, Trump disse que os EUA estariam trabalhando em estreita colaboração com o Irã e "falando sobre alívio de tarifas e sanções".
Em uma publicação, ele acrescentou que "um país que forneça armas militares ao Irã será imediatamente tarifado em 50% sobre quaisquer e todos os bens vendidos aos Estados Unidos da América, com efeito imediato. Não haverá exclusões ou isenções"
Já o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que as Forças Armadas dos EUA garantiriam que o Irã cumpra o cessar-fogo e volte à mesa para um acordo.
As tropas vão "permanecer onde estão, permanecer prontas, permanecer vigilantes" e estar "prontas para retomar a qualquer momento", acrescentou.
O Irã concordou em permitir a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz por duas semanas, com o trânsito coordenado pelas forças militares iranianas.
O país também apresentou um plano de 10 pontos, que inclui, entre outras medidas, a cessação completa da guerra no Irã, Iraque, Líbano e Iêmen; o "compromisso total" com a retirada das sanções contra o Irã; a liberação de fundos e ativos iranianos congelados pelos EUA; e o "pagamento integral de compensação pelos custos de reconstrução" ao Irã.
Também afirma que o Irã "se compromete plenamente a não buscar a posse de armas nucleares".
"A vitória do Irã no campo de batalha também será consolidada nas negociações políticas", afirmou o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã no comunicado.
O que disse Israel?
Poucas horas após o anúncio do cessar-fogo por Trump, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou: "Israel apoia a decisão do presidente Trump de suspender os bombardeios contra o Irã por duas semanas, sujeita à abertura imediata do estreito e a paralisação de todos os ataques contra os EUA, Israel e países da região".
A declaração israelense acrescentou que o "cessar-fogo não inclui o Líbano", onde Israel tem tropas em solo.
A liderança israelense tem reiterado que não deixará o Líbano até que a ameaça do Hezbollah (aliado do Irã) seja eliminada. Até o momento, não há indicação de que Israel tenha concordado em interromper suas operações no país ou em outras frentes.
Não está claro quão envolvido Netanyahu esteve na decisão de Trump de firmar o cessar-fogo.
*Com reportagem de Kelly Ng, Khashayar Joneidi e Daniel De Simone, em Washington, Singapura e Jerusalém