Gatos gostam de ser levados para passear ou isso é apenas um capricho dos tutores?

Fifi, uma gata cinza com manchas pretas, olha para a direita do quadro. Ela usa uma coleira vermelha e está equilibrada em um galho de árvore coberto de musgo. Atrás dela, a imagem está desfocada e há uma floresta. Fifi tem olhos turquesa

Crédito, Manda Glasspell

Legenda da foto, Fifi adora a floresta, diz sua dona, Lucy Francom
    • Author, Rowenna Hoskin
    • Role, BBC Wales
  • Tempo de leitura: 9 min

Roo usa coleira e sua tutora, Alana Kestle, segura a guia — as duas estão prontas para sair para passear.

Só que Roo é uma gata e está longe de ser a única felina a ser levada para passeios.

O TikTok e o Instagram viram uma explosão de conteúdo de gatos aventureiros nos últimos anos — com felinos de estimação empoleirados em pranchas de stand-up paddle, escalando montanhas ou trotando em praias.

Com o aumento do número de jovens morando em apartamentos nas cidades, o tempo supervisionado ao ar livre permite que seus gatos tenham experiências enriquecedoras com atividades externas sem o risco de serem atropelados, argumentam os tutores.

A especialista em gatos Emily Blackwell afirma que, embora não condene a prática, também não a recomenda, acrescentando que o sucesso depende do gato e do dono.

A instituição de caridade voltada para o bem-estar dos gatos Cats Protection aconselha futuros tutores a escolherem um gato que possa "prosperar no ambiente e estilo de vida que podem oferecer, em vez de tentar forçar o gato a se adaptar".

"Eu diria que a maioria dos donos de gatos que dedicam semanas e meses para treiná-los a usar coleira, acostumá-los gradualmente à mochila e levá-los para passear são bons donos que querem manter seus gatos seguros", diz Alana.

Quando Roo foi adotada por Alana, de 22 anos, e seu parceiro, ambos de Cardiff, no País de Gales, a gatinha deveria ser uma gata de apartamento.

Mas então, vídeos de gatos sendo levados para passear na coleira começaram a aparecer em suas redes sociais, e o casal decidiu experimentar.

Roo, a gata malhada, está sentada no chão de uma floresta coberto de agulhas de pinheiro. Roo tem olhos verdes e usa uma coleira turquesa e uma guia de corda vermelha

Crédito, Alana Kestle

Legenda da foto, Roo é muito inteligente e usa botões de comunicação para se comunicar em casa, diz Alana

Como estudante do terceiro ano de veterinária na Universidade de Surrey, Alana já viu os perigos que os gatos de rua enfrentam, como atropelamentos, brigas e doenças.

O casal começou experimentando diferentes tipos de coleiras e acostumando Roo a usá-las dentro de casa, antes de introduzir uma mochila de viagem que Roo pudesse usar se precisasse de um espaço seguro quando estivesse fora de casa.

"Levou alguns meses para ela começar a perceber: 'não, isso é realmente seguro'", mas agora ela "corre sem parar lá fora, com o rabo em pé, miando e correndo na guia", diz Alana.

Alana Kestle está segurando Roo, a gata malhada, em seus braços. Roo tem os olhos arregalados e Alana está beijando sua cabeça. Alana tem cabelos longos e loiros e usa óculos. Atrás das duas, vê-se um tronco de árvore e uma floresta

Crédito, Alana Kestle

Legenda da foto, Roo adora a floresta perto do apartamento de Alana, onde ela foi treinada

Alguns veterinários que ela conhece são "muito a favor" dos passeios, enquanto outros expressam preocupação.

Alana acredita que passear com gatos se tornou mais popular entre os jovens porque eles vivem em ambientes urbanos e percebem os perigos que isso representa para os felinos, mas discorda quando as pessoas "fazem isso para as redes sociais e forçam demais seus gatos".

O segredo é conhecer seu gato, sua linguagem corporal e saber quando ele já está cansado, acrescenta.

Ela está longe de ser a única; na verdade, há mais de 4,5 mil membros no grupo "UK Cat Walkers" do Facebook, que reúne tutores que passeiam com seus gatos no Reino Unido.

Bongo, um gato malhado, está em pé na frente de uma prancha de stand-up paddle azul. Atrás dele, alguém está ajoelhado na prancha com um remo. Uma coleira verde é visível em volta do pescoço e do corpo dele

Crédito, Lucy Francom

Legenda da foto, Bongo adora tanto a prancha de stand-up paddle que pula nela enquanto ainda está sendo inflada e também quando está na água, diz sua tutora

Lucy Francom, de 26 anos, começou a treinar Bongo quando o adotou há cerca de quatro anos, porque ele a seguia para todo lado.

Lucy, que cresceu em Llandudno, no condado de Conwy, no País de Gales, não acredita que os gatos devam sair sozinhos, não importa onde vivam, mas também não gostaria que ficassem dentro de casa o tempo todo.

Em vez disso, Bongo e sua outra gata, Fifi, são treinados para praticar stand-up paddle, andar de caiaque e passear com ela.

Lucy Francom, uma mulher com cabelos longos e tingidos de azul, que chegam até os ombros, sorri para a câmera. Ela usa óculos com armação azul e um casaco de lã roxo. Ela carrega um gato cinza de olhos verdes e usa uma coleira roxa

Crédito, Lucy Francom

Legenda da foto, Lucy diz que sua gata Fifi tem muita energia e está sempre subindo em árvores

Mas como se treina um gato?

Lucy diz que o truque é respeitar o ritmo deles e usar um clicker, equipamento que, ao ser clicado, libera um petisco quando o gato executa o comportamento correto, para que ele associe a ação à recompensa.

Bongo e Fifi foram treinados para passear com Lucy sem guia, de forma que voltem quando ela os chama. No entanto, Lucy dz que é preocupante ver pessoas nas redes sociais arrastando seus gatos por aí sem treiná-los adequadamente.

Fifi e Bongo estão em cima de uma pedra coberta de musgo. Fifi é uma gata cinza com manchas, olhos verdes e usa uma coleira vermelha. Bongo é um gato malhado de olhos azuis. Atrás deles, há uma floresta

Crédito, Lucy Francom

Legenda da foto, Fifi e Bongo foram treinados para atender ao chamado, então eles voltam para Lucy quando necessário

Candice Stapleton é treinadora de cães e diz que treinar gatos é bastante semelhante.

Ela tem quatro felinos, mas apenas Capitão Crumpet passeia com ela e Lexa May, uma mistura de pastor alemão com border collie.

Ela não acredita que todos os gatos devam ser treinados para usar coleira: "Decidi que passear não é bom para Chikondi por causa dos seus problemas de quadril. Tenho dois gatos mais velhos e também não seria adequado para eles."

Uma das coisas importantes em que ela treinou Capitão Crumpet e Chikondi é o que fazer se eles se sentirem ameaçados, e ela carrega uma mochila como um espaço seguro móvel.

Candice Stapleton, uma mulher com cabelo curto tingido de roxo e azul, está na margem de um rio. Há um gato deitado em seu ombro e um cachorro ao seu lado

Crédito, Candice Stapleton

Legenda da foto, Candice diz que o gato Capitão Crumpet e a cadela Lexa May se dão bem

Ela acredita que os jovens estão aderindo aos passeios com gatos porque veem isso nas redes sociais, enquanto as pessoas mais velhas "podem ser um pouco mais conservadoras na ideia de que 'cachorros passeiam e gatos não'".

"Acho que há muita presença [desse tipo de conteúdo] nas redes sociais e as pessoas podem estar fazendo isso para ganhar curtidas em vez de pensar no que é melhor para o gato."

Ela diz que passear com Capitão Crumpet é "um verdadeiro estímulo para o humor; não consigo evitar sorrir ao ver seu rabo feliz enquanto ele trota".

Um gato malhado sentado em um muro; um campo verde é visível atrás dele

Crédito, Candice Stapleton

Legenda da foto, Chikondi costumava passear com Candice, mas depois de descobrir que a gata tem um problema no quadril, ela passou a ficar em casa
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Abby Mayers e sua esposa Melody, ambas de 22 anos, moram em Cheshire, no noroeste da Inglaterra, e costumam passear com sua gata Olive.

O casal tem três gatos e, embora o gatinho Robin esteja sendo treinado para usar coleira, Ginny não gosta da ideia e fica em casa.

"Começamos a treinar [Olive] com coleira porque morávamos em um apartamento no primeiro andar, sem jardim e perto de uma rua bastante movimentada", diz ela.

Agora que moram em uma casa com jardim, elas deixam Olive sair sem supervisão, pois ela tem muita energia e o casal trabalha muitas horas.

"Eu vi a orientação [de que o treinamento com coleira não é recomendado] e isso me preocupou um pouco, porque pensei: 'e se estivermos fazendo a coisa errada?' Mas se Olive e Robin não gostassem, não fariam", diz Abby.

"Quem tem gatos sabe que eles não fazem o que não querem. Eu os conheço bem o suficiente para saber quando estão gostando de algo e quando não estão", afirma.

"Se meus gatos demonstrassem algum sinal de desconforto, eu não faria isso com eles."

Uma mulher contemplando a vista de um planalto com campos verdes à frente. Nas costas, ela carrega uma mochila azul com a cabeça de um gato saindo de uma das aberturas

Crédito, Abby Mayers

Legenda da foto, Olive pode tanto caminhar quanto viajar na mochila, diz Abby

Emily Blackwell, professora sênior de comportamento e bem-estar de animais de companhia na Escola de Medicina Veterinária de Bristol, no Reino Unidos, diz que seria "cautelosa em recomendar isso como uma forma de dar a um gato estímulo extra", porque "a maioria dos gatos acharia sair do território familiar e ser contida [por uma coleira ou mochila] muito estressante".

Ela diz que o treinamento desde muito jovem é crucial se o dono estiver determinado a fazê-lo, e que o gato deve ser naturalmente muito confiante e curioso.

Blackwell diz que já viu gatos que foram habituados a usar coleira aparentemente muito felizes explorando cadeias de montanhas, mas também já viu gatos claramente infelizes passeando em ruas movimentadas com tráfego intenso.

O gato Capitão Crumpet olha para cima. Ele tem o corpo creme com manchas marrons no rosto, nas patas e na cauda. Tem olhos azuis e usa uma coleira colorida com estampa. Uma guia preta está presa à coleira

Crédito, Candice Stapleton

Legenda da foto, Capitão Crumpet já fez caminhadas por todo o País de Gales, incluindo o Farol de Twr Mawr na Ilha de Llanddwyn, no País de Gales

"É algo que pode funcionar, mas não é o normal", diz Blackwell.

"Não estou condenando totalmente. Sei que algumas pessoas fazem isso de forma muito responsável e bem-sucedida. Permitir que o gato escolha se quer ir, ter um lugar com você onde ele possa se esconder se quiser, é realmente importante."

Ela diz que é essencial que os donos reconheçam quando um gato está estressado, com comportamentos como:

  • Hesitar;
  • Olhar muito ao redor de forma hipervigilante;
  • Ficar para trás e precisar ser puxado;
  • Manter as orelhas abaixadas ou se encolher.

Daniel Warren-Cummings, especialista em comportamento animal clínico da Cats Protection, diz: "Muitos donos de gatos mais jovens são atraídos por itens que frequentemente comprometem o bem-estar dos gatos e demonstram pouca consciência das necessidades dos felinos, como coleiras e mochilas com janelas de bolha, muitas vezes como resultado da influência das redes sociais."

Ele diz que deixar o gato solto é sempre preferível, mas se isso não for possível, muitos gatos se adaptam bem a espaços pequenos e à falta de acesso ao exterior.

Ele recomenda que os potenciais donos de gatos escolham um animal de estimação que "prospere no ambiente e estilo de vida que você pode oferecer, em vez de tentar forçar o gato a se adaptar".