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Imagem de Trump como Jesus Cristo e embate com o papa provocam reação até entre aliados e premiê da Itália
- Author, Sarah Smith
- Role, BBC News
- Tempo de leitura: 5 min
A imagem de Donald Trump como uma figura semelhante a Jesus, somada a um novo embate com o papa, está gerando reação negativa — inclusive entre seus próprios apoiadores mais fiéis.
Trump apagou uma publicação nas redes sociais que trazia uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparecia como uma figura semelhante a Jesus, com luz divina saindo de suas mãos.
Ele afirmou que a intenção era retratar a si como um médico curando pessoas. Ainda assim, a postagem provocou uma onda de críticas — não apenas de opositores, mas também de setores de sua própria base.
Alguns cristãos conservadores, tradicionalmente alinhados a Trump, classificaram a imagem como blasfema e desrespeitosa às crenças religiosas. Um deles escreveu:
"Deus não será zombado", enquanto outro descreveu a publicação como "blasfêmia vinda do Salão Oval", pedindo que o presidente a apagasse — o que acabou acontecendo.
A decisão representa uma rara mudança de posição de Trump diante da pressão pública, especialmente de apoiadores cujo respaldo político ele considera essencial.
Além da reação negativa dentro de sua própria base, Trump também recebeu críticas da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que afirmou que as recentes declarações do presidente americano sobre o papa Leão 16 foram "inaceitáveis".
"O Papa é o chefe da Igreja Católica, e é certo e normal que ele peça paz e condene todas as formas de guerra", disse Meloni em um comunicado.
Meloni, que é católica e lidera um governo de coalizão de direita, é uma aliada próxima de Trump e, até então, vinha relutando em condenar as duras críticas do presidente dos EUA ao Papa Leão 16.
Seu parceiro de coalizão, Matteo Salvini, líder do partido populista Liga, disse que atacar o Papa "não parece algo útil nem inteligente de se fazer".
Trump entrou em conflito com papa Leão 14, após publicar um ataque duro contra o pontífice na rede Truth Social no domingo (12/4), em resposta a críticas do papa à guerra no Irã. Trump declarou: "Não sou um grande fã do papa Leão".
Ele também sugeriu que o pontífice foi eleito "porque era americano, e acharam que essa seria a melhor maneira de lidar com o presidente Donald J Trump". "Se eu não estivesse na Casa Branca, Leo não estaria no Vaticano."
O papa, por sua vez, afirmou não temer o governo Trump e disse que continuará defendendo a paz e se posicionando firmemente contra conflitos armados.
Na segunda-feira (13/4), Trump insistiu nas críticas, dizendo que não pediria desculpas ao Papa, a quem chamou de "muito fraco".
Questionado por repórteres a explicar a publicação, disse depois: "Não acho que ele esteja fazendo um trabalho muito bom, ele gosta de crime, eu acho".
Trump acrescentou: "Ele é uma pessoa muito liberal e é um homem que não acredita em conter o crime, é um homem que não acredita que devamos brincar com um país que quer uma arma nuclear para que possa explodir o mundo".
Mudança de tom no Vaticano
No dia 31 de março, em conversa com jornalistas quando saía do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, o posicionamento do Papa Leão 16 foi coerente com o discurso da Igreja: pedia a paz, cobrava a defesa da dignidade humana e reforçava a necessidade de que as partes buscassem se sentar à mesa de negociação.
No entanto, vaticanistas e observadores notaram uma mudança de padrão. Em vez da crítica indireta, falando sobre o problema sem mencionar o nome do chefe de Estado envolvido, o sumo pontífice citou claramente Trump.
O papa disse que "não tem medo" da administração Trump e vai continuar a se manifestar contra a guerra depois que o presidente dos EUA lançou um ataque incomum e contundente por causa de sua posição sobre o conflito com o Irã.
Ele tem sido um crítico explícito da guerra com o Irã, chamando de "inaceitável" a ameaça de Trump de destruir a civilização iraniana e pedindo que ele encontre uma "saída" para encerrar o conflito.
Em geral, é raro um Papa responder diretamente a declarações de líderes mundiais.
Os comentários de Trump ocorreram enquanto o pontífice iniciava uma viagem de 11 dias pela África, sua segunda grande viagem internacional desde que foi eleito no ano passado.
As declarações de Trump também atraíram críticas de católicos em todo o mundo, com um especialista comparando os comentários à relação do Papa com ditadores fascistas na Segunda Guerra Mundial.
"Nem Hitler nem Mussolini atacaram o Papa de forma tão direta e pública", disse o proeminente comentarista católico italiano Massimo Faggioli.
Há mais de 70 milhões de católicos nos EUA, cerca de 20% da população. Entre eles está o vice-presidente de Trump, JD Vance.
Além dos pronunciamentos públicos para denunciar conflitos globais, o papa também já criticou a política de imigração de linha dura de Trump. Ele questionou se era possível alguém ser "pró-vida" — um termo normalmente associado a opositores do aborto — se concordasse com o que descreveu como o "tratamento desumano de imigrantes".
Leão 16 é visto como alguém que dá continuidade à tradição humanitária de seu antecessor, o Papa Francisco, que disse que Trump "não era cristão" durante a campanha eleitoral de 2016 por causa de sua linguagem anti-imigração. Trump descreveu o falecido Papa como "vergonhoso".
Com reportagem de Robert Greenall e Laura Gozzi, da BBC News