Segundo caça americano é abatido no Irã, diz Exército iraniano; EUA resgatam piloto

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Dois caças dos Estados Unidos teriam sido abatidos pelo Irã , segundo as Forças Armadas iranianas anunciaram nesta sexta-feira (3/4).

No primeiro caso, um caça F-15E americano foi abatido sobre o sul do Irã, e um membro da tripulação foi resgatado por forças dos EUA, disseram dois oficiais à CBS News, parceira da BBC nos Estados Unidos.

Não se sabe o que aconteceu com o segundo tripulante da aeronave.

Esse foi o primeiro caso conhecido de um caça dos EUA abatido sobre o Irã durante este conflito - e ele ocorre após Trump afirmar que o Irã estava debilitado militarmente e "não poderia fazer nada" em relação aos aviões americanos que sobrevoam seu território.

Mais tarde, a TV estatal do Irã informou que uma outra aeronave americana, um caça A‑10, "foi abatida pelos sistemas de defesa da Força de Defesa Aérea do Exército e caiu no Golfo Pérsico, no sul do Irã", citando o Exército iraniano. A nota acrescenta que o avião foi derrubado na região do Estreito de Ormuz.

A CBS News, nos EUA, apurou que um caça A‑10 envolvido na operação de resgate do primeiro avião derrubado foi alvo de disparos do Irã. O piloto se ejetou sobre o Golfo Pérsico, onde foi resgatado, diz a CBS.

Ainda não há a confirmação de que o segundo caça que o Irã diz ter derrubado é o mesmo que estava envolvido no resgate dos militares americanos.

Segundo a CBS, dois helicópteros também participaram das buscas, resgatando um dos dois tripulantes do F‑15E do acidente anterior.

O helicóptero que transportava o piloto recuperado foi atingido por tiros de armas leves, ferindo membros da tripulação a bordo. O helicóptero pousou em segurança, e a tripulação está recebendo atendimento, segundo a CBS.

Questionado em entrevista à NBC News se os eventos desta sexta teriam algum impacto nas negociações com o Irã, o presidente Donald Trump disse que "não, de modo algum."

"É guerra. Estamos em guerra", disse Trump à emissora.

Primeiro caça abatido

Os casos desta sexta são os primeiros conhecidos de caças americanos abatidos sobre o Irã durante o conflito. Três F-15E foram derrubados anteriormente por "fogo amigo" das defesas aéreas do Kuwait no início da guerra.

A mídia iraniana também informou que autoridades ofereceram uma recompensa de 10 bilhões de tomans (cerca de R$ 340 mil) por um membro da tripulação americana capturado com vida.

Embora um tripulante tenha sido resgatado, não há informações sobre os demais. Não se sabe quantas pessoas estavam a bordo, mas o F-15E costuma ter uma tripulação de duas pessoas.

O caso ocorre após Trump e seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, terem afirmado repetidamente que os EUA haviam efetivamente vencido a guerra.

Hegseth e comandantes militares falaram em "superioridade aérea" e na degradação das defesas aéreas do Irã.

O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, ironizou os Estados Unidos em sua conta na plataforma X após os relatos da derrubada do avião.

"Depois de derrotar o Irã 37 vezes seguidas, essa guerra brilhante e sem estratégia que eles iniciaram agora foi rebaixada de 'mudança de regime' para 'Ei! Alguém pode encontrar nossos pilotos? Por favor?'", ele afirmou.

Trump afirmou em 31 de março que houve uma mudança de regime no Irã, dizendo que a nova geração de líderes iranianos é "muito menos radicalizada" e mais "racional".

Ghalibaf também publicou sarcasticamente: "Uau. Que progresso incrível. Gênios absolutos."

A corrida para encontrar tripulante americano

Especialistas disseram à BBC que a busca em curso pelo membro da tripulação desaparecido do caça americano abatido é extremamente sensível ao tempo, já que o Irã corre para localizar o mesmo militar que as equipes americanas de busca e resgate em combate estão procurando.

"É a missão militar mais perigosa de que tenho conhecimento", afirma James Jeffrey, estrategista militar e importante diplomata dos EUA que atuou como representante especial para a Síria e enviado especial para a intervenção militar internacional contra o Estado Islâmico.

Essas missões costumam ser realizadas por helicópteros, com aeronaves de reabastecimento em apoio e outros aviões militares prontos para realizar ataques e patrulhar a área.

Um vídeo verificado pela BBC que surgiu no Irã na sexta‑feira parece mostrar uma missão desse tipo em andamento sobre a província de Khuzistão.

"Essas são equipes de operações especiais da Força Aérea, treinadas quase no nível da Delta Force [unidade de elite de contraterrorismo do Exército] e do Navy Seal Team Six [unidade de elite da Marinha], mas que também têm capacidades médicas", diz Jeffrey à BBC. "Eles não desistem enquanto houver qualquer chance de encontrar um piloto."

Quando um jato é abatido sobre território inimigo, o piloto e a tripulação dessa aeronave também são altamente treinados para tal situação.

"A prioridade número um deles é permanecer vivos e evitar a captura", afirma Jennifer Kavanagh, pesquisadora sênior e diretora de análises militares do centro de pesquisas Defense Priorities, nos EUA, à BBC.

"E, portanto, eles são treinados — supondo que estejam fisicamente capazes e não tão feridos a ponto de não conseguirem se mover — para tentar se afastar do local da ejeção o mais rápido possível e se esconder, para que fiquem em segurança."

Eles também são treinados em técnicas de sobrevivência para que possam ficar sem comida ou água ou encontrar recursos no terreno local pelo maior tempo possível, acrescenta Kavanagh.

Mais ataques no Golfo

Ataques atribuídos ao Irã também atingiram alvos estratégicos no Golfo nesta sexta e ampliaram a escalada do conflito no Oriente Médio.

No Kuwait, drones atingiram a refinaria de Mina al-Ahmadi, provocando incêndios em diversas unidades, embora não haja registro de vítimas. Autoridades locais também confirmaram danos a uma usina de energia e dessalinização.

Especialistas alertam que esse tipo de instalação é essencial para a região, já que cerca de 90% da água potável no Golfo depende da dessalinização da água do mar — o que eleva o risco humanitário caso novos ataques comprometam esse sistema.

Especialistas destacam que a região do Golfo é extremamente árida e depende quase totalmente dessas estruturas para sua sobrevivência. Sem a dessalinização da água do mar, não apenas o abastecimento seria interrompido, como áreas inteiras poderiam se tornar praticamente inabitáveis, afetando diretamente a vida cotidiana e a estabilidade dos países.

Ao mesmo tempo, Estados Unidos e Israel intensificaram suas ações contra o Irã. Militares israelenses afirmam ter lançado uma nova onda de ataques em Teerã.

Nas últimas 24 horas, as Forças de Defesa de Israel (IDF) dizem ter realizado "mais de 70 ataques no oeste e no centro do Irã, visando locais de lançamento de mísseis balísticos e veículos aéreos não tripulados".

Em uma atualização separada, as forças israelenses informaram que começaram a atacar partes de Beirute. Também relataram ter detectado múltiplas barragens de mísseis disparadas contra seu território a partir do Irã ao longo do dia.

Um bombardeio atingiu uma ponte estratégica próxima a Teerã, na região de Karaj, deixando ao menos oito mortos e quase 100 feridos, segundo autoridades locais.

O episódio marca um novo patamar na ofensiva contra a infraestrutura iraniana. Trump afirmou que os ataques podem se expandir e indicou que pontes e usinas elétricas estão entre os possíveis próximos alvos.

Também nesta sexta, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que suas forças destruíram aproximadamente 70% da capacidade de produção de aço do Irã.

Segundo o premiê, a ação é uma "conquista tremenda" que privou a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) de recursos financeiros e militares.

"Em plena coordenação entre mim e o presidente Trump, entre as Forças de Defesa de Israel e as Forças Armadas dos Estados Unidos, continuaremos a esmagar o Irã", disse ele.

Em resposta aos últimos ataques, o Irã lançou mísseis contra Israel durante a madrugada, enquanto as Forças de Defesa de Israel afirmaram ter realizado ataques no sul do Líbano que resultaram na morte de 15 integrantes do Hezbollah.

A escalada já afeta vários países da região, com registros de interceptações de drones, alertas de segurança e incidentes envolvendo destroços em áreas urbanas.

No campo diplomático, aumentam as tensões e divergências. O presidente francês Emmanuel Macron criticou a condução do conflito, defendendo uma abordagem mais estável e cautelosa diante da gravidade da situação.

Paralelamente, uma votação prevista no Conselho de Segurança da ONU sobre a crise no Estreito de Ormuz foi retirada da agenda sem explicação, sinalizando dificuldades para uma resposta internacional coordenada.

Dentro do Irã, o cenário também é de crescente controle estatal. O país enfrenta um apagão de internet que já dura 35 dias, com a conectividade reduzida a níveis mínimos.

Relatos apontam ainda para o aumento de prisões e execuções ligadas a protestos, indicando que o governo tem intensificado medidas para conter qualquer sinal de instabilidade interna em meio ao avanço do conflito externo.

Histórico do conflito

Os EUA e Israel lançaram sua campanha militar conjunta contra o Irã no dia 28 de fevereiro. Teerã imediatamente respondeu, não apenas lançando mísseis contra Israel, mas também com bombardeios contra países do Golfo aliados dos americanos.

Os primeiros ataques dos EUA e Israel tiveram como alvo a infraestrutura de mísseis, instalações militares e os líderes do Irã na capital Teerã e em outras partes do país.

O líder supremo iraniano desde 1989, o aiatolá Ali Khamenei, foi morto durante a primeira onda de ataques.

As forças israelenses afirmam que dezenas de outras figuras de alto escalão do poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) também foram mortas.

O filho de Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei, foi nomeado seu sucessor no dia 8 de março.

O conflito sofreu rápida escalada, chegando até o Líbano, acumulando mortes e danos por toda a região.

Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita, Catar, Omã e, em particular, os Emirados Árabes Unidos, foram alvejados por Teerã. Além de ataques a bases militares americanas na região, autoridades do Golfo disseram que o Irã visou infraestrutura civil, incluindo aeroportos, hotéis, áreas residenciais e instalações de energia.

O Irã vem usando o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz — vias cruciais para a economia global — como principal ponto de influência.

Os preços do petróleo no mercado internacional tem oscilado e ultrapassaram, em alguns momentos, patamares dos US$ 110.

Os EUA e Israel também atacaram instalações fundamentais para o programa nuclear iraniano (que o Irã defende ser totalmente pacífico) e a infraestrutura de petróleo e gás do país.

Elas incluem a ilha de Kharg, que abriga um importante terminal petrolífero, considerado a tábua de salvação econômica do Irã.

Israel também atacou South Pars, que faz parte do maior campo de gás natural do mundo.