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Guerra no Irã pressiona futuro de Catar e Emirados Árabes: 'Existência por gerações pode estar em risco'
- Author, Luis Barrucho
- Role, BBC World Service
- Tempo de leitura: 7 min
Por muito tempo vistos como oásis de estabilidade e ambição, países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Bahrain, atraíram investidores, grandes empresas e trabalhadores qualificados em grande número. Aeroportos foram transformados em centros globais e cidades, em pólos de finanças e turismo.
Mas a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã abalou essa imagem à medida que mísseis e drones iranianos direcionados a bases militares americanas na região também atingiram infraestrutura civil e energética.
Os governos têm tentado restabelecer a normalidade rapidamente: o governo do Catar, por exemplo, encerrou o trabalho remoto e reabriu salas de aula nas universidades. Mas alguns especialistas afirmam que, embora os países do Golfo possam suportar choques, a guerra impôs uma redefinição estratégica.
"Você não pode impedir ataques do Irã, porque isso é uma questão geográfica, de proximidade", diz Alex Vatanka, do think tank (centro de pesquisas e debates) Middle East Institute, com sede em Washington, nos EUA.
"Esses países agora caíram nessa fissura, se tornaram estados de linha de frente em uma guerra que não era deles e, ainda assim, estão pagando um preço econômico muito alto por isso".
Ele acrescenta que "mesmo que invistam todo o seu dinheiro em defesa, o que vimos é que esses países são alvos muito fáceis para o Irã, investimentos de bilhões de dólares ficam em risco diante de drone iranianos que custam apenas alguns milhares de dólares".
Esse desequilíbrio, afirma Vatanka, eleva os custos de seguros, complica a logística e pode levar empresas a reconsiderar sua exposição à região do Golfo.
Manutenção da autonomia
À medida que os países do Golfo trafegam por uma linha tênue entre os EUA, Israel e o Irã, uma consequência imediata para o região é a renovação do alinhamento de segurança com os EUA, afirma Ebtesam Al Ketbi, presidente do Emirates Policy Center, think tank com sede nos Emirados Árabes Unidos.
Ela afirma que os países do Golfo estão sendo "empurrados para mais perto dos EUA, e discretamente, mais próximos de Israel na prática, devido às necessidades imediatas de segurança".
Al Ketbi ressalta, porém, que essa cooperação é pragmática, não ideológica. "Eles continuam receosos de serem arrastados ainda mais para a guerra, virarem alvos prioritários e perderem a autonomia estratégica."
Vatanka, do Middle East Institute, pondera que laços de defesa mais próximos vêm com limites, especialmente o quão dispostos os EUA estão em defender o Golfo. Ele afirma que os governos do Golfo alertaram os EUA sobre os riscos do conflito, mas acabaram frustrados.
"Trump foi à guerra mais por Netanyahu e ignorou os países do Golfo", afirmou Vatanka. "Eles sabem que nunca serão tratados da mesma forma com que Israel é tratado."
Ele argumenta que a política interna dos Estados Unidos também limita quão longe o governo americano pode ir para defender aliados no Golfo no longo prazo. "A população americana iria querer dobrar as bases militares na região do Golfo? Como propor isso?"
"Isso vai contra o centro do argumento do movimento Maga [sigla em inglês para Faça a América Grande Novamente] de que essas intervenções ao redor do mundo corroem os EUA por dentro."
Dissuasão e diplomacia
Por sua vez, o Irã tem pressionado países do Golfo para assumir neutralidade, afirma Vatanka, do Middle East Institute. "O ministro das Relações Exteriores do Irã reclamou que nenhum dos países do Golfo condenou o ataque dos EUA e de Israel contra o Irã… O Irã está dizendo a eles: 'Saiam dessa briga'."
Ainda que os governos do Golfo estejam "furiosos com o Irã", diz Vatanka, eles querem evitar se tornar alvos primários. Para o especialista, a estratégia de países da região é implantar dissuasão enquanto evitam virar parte visível de operações dos EUA ou de Israel.
"O Irã pode literalmente dificultar a vida das pessoas que moram nesses países. Sua inteira existência por gerações pode estar em risco", afirma Vatanka, citando os perigos em torno de ataques contra infraestrutura de energia e dessalinização.
A solução a longo prazo está na diplomacia, defende Bader Mousa Al Saif, ex-autoridade do governo do Kuwait e hoje pesquisador associado da Chatham House, think tank baseado no Reino Unido.
"Nós precisamos chegar a um acordo com nossos vizinhos", afirma Al Saif. "Nós precisamos conversar diretamente com o Irã. Precisamos chegar a um plano sobre como podemos compartilhar nossa vizinhança."
Resiliência econômica posta à prova
A transformação do Golfo, de economias movidas a petróleo para centros globais de serviços, tem sido um dos fatos econômicos mais impressionantes da última década. E o conflito atual, dizem especialistas, pode não reverter essa trajetória, mas expôs suas vulnerabilidades.
Al Ketbi, do Emirates Policy Center, espera que os países do Golfo "continuem sendo grandes centros, mas sob condições se avolumando", como alta dos custos, de seguros e da percepção de risco.
Ela argumenta que a transição vai depender mais de governos do que de empresas privadas, e que os negócios vão adotar medidas de salvaguarda, como operações descentralizadas em múltiplos centros.
Ao longo do tempo, avalia Al Ketbi, esses países vão expandir seus parceiros de negócios, potencialmente se aproximando da China e de outros parceiros regionais "para evitar uma superdependência" dos EUA.
Al Saif, da Chatham House, concorda que a força financeira da região conseguirá absorver o impacto do conflito atual, mas isso terá um custo alto.
"O preço será pago no progresso dos planos nacionais de transformação", afirma Al Saif, explicando que o estrago causado por mísseis na planta de gás natural Ras Laffan demorará anos e custará pelo menos US$ 20 bilhões (cerca de R$ 103 bilhões) em perdas de receita por ano enquanto passa por manutenção.
"Esse é um pequeno exemplo, mas eu penso que nós temos resiliência financeira para superar isso. Pode também demandar cortes em alguns de nossos projetos e mudar as prioridades dos investimentos."
Al Saif atribui essa resiliência "à forma como nos organizamos, em termos de sistemas políticos, poder financeiro e capital abundante, pequenas populações, objetivos claros e oportunidades de investimento no exterior".
Estar no meio de disputas "não é algo sem precedentes", relembra Al Saif, citando a invasão do Kuwait pelo Iraque que resultou na Guerra do Golfo no início dos anos 1990. Ele acrescenta ainda que "nós também fomos vítimas do terrorismo no início dos anos 2000, e também lidamos com aquele desafio".
Além disso, cita Al Saif, "em 2010, 2011, se você se lembra da Primavera Árabe, ela também aconteceu na região, no Golfo, e também conseguimos atravessá-la bem".
Rumo à defesa integrada
Para especialistas, outra consequência do atual conflito será uma postura defensiva do Golfo mais unificada e avançada tecnologicamente.
Al Ketbi, do Emirates Policy Center, prevê amplos investimentos em defesas de mísseis em camadas que contam com redes de alerta, drones e capacidades cibernéticas.
Para Al Saif, da Chatham House, a integração deve ir além. "Nós precisamos coordenar nossas aquisições, ter um sistema centralizado no Golfo… Além de um processo que amplie nossas capacidades, com um olho na produção local de defesa."
A rivalidade regional, no entanto, pode complicar essa ambição.
Vatanka, do Middle East Institute, ressalta que "alguns países do Golfo são tão rivais entre si quanto são rivais do Irã", tornando a coordenação da defesa um ponto politicamente sensível.
Um futuro cauteloso
Especialistas avaliam que o futuro do Golfo vai depender não apenas do Irã, mas de mais amplas dinâmicas regionais, incluindo as tensões entre as próprias nações da região.
"É um erro assumir que o Irã é a única entidade bloqueando o caminho em direção a uma ordem regional", alerta Vatanka, do Middle East Institute. "Esses países têm uma história de mais desunião do que de união."
Ainda assim, especialistas afirmam que o Golfo continuará sendo um centro global importante, ainda que operando num ambiente mais militarizado e sensível ao risco.
"Eles não vão descarrilhar, mas vão recalibrar", afirma Al Ketbi, do Emirates Policy Center. "O Golfo se torna mais resiliente, mas também mais exposto e militarizado ao longo do texto."